
De onde nasce novo amor,
Eu pergunto:
Tem mais?
I want a little sugar in my bowl. I want a little sweetness down in my soul.

Estou emprestando a voz a uma mulher que não sabe falar em público. Ela ouve os homens falando e ri, você acredita? Ela finge que entende o que os homens dizem, principalmente, quando são altos, bem apessoados e têm carro. Estou emprestando a voz a uma mulher que não é. De onde ela veio? Eu não sei. Sou somente a proprietária e ela, o inquilino. Está me saindo mais caro do que eu pensava, mas já assinamos contrato, fizemos acordo, apertamos as mãos, fechamos negocio, abrimos garrafa de vinho pra comemorar. Mentira. Eu nunca beberia com uma mulher como ela. Ela é assim, como eu posso explicar? Ela é uma mulher que bebe whisky misturado com cerveja barata. Não fica bem pra uma pessoa como eu andar com uma mulher como ela. Não que eu ande, claro que não. Negócios são negócios. Olha como ela se veste: jaqueta jeans, mochila jeans, saia muito curta, acho tão vulgar. Vulgar! Estou emprestando a voz a uma mulher que grita. Que muda o tom muitas vezes enquanto fala, alternando volumes com a mesma freqüência de quem alterna pés enquanto caminha. Não que eu seja egoísta, egocêntrica ou coisa que o valha, mas eu tenho apreço pela minha voz. Não queria largar na boca de uma qualquer. Ela é uma qualquer. Ela nunca saiu do pais, você acredita? E quer saber do pior? Ela diz que já foi pra Argentina. Duas vezes. Viu num filme na televisão e agora acha que conhece o pais. Um filme não, um programa desses de turismo que passa na TV aberta. Ela mente. Estou emprestando a minha voz a uma mulher que dorme de calcinha e se cobre com lençol. Ela diz que não sente frio. Quando? No dia em que combinamos que a minha voz seria dela. Não vai durar muito tempo. É só por algumas páginas. Sete capítulos, combinamos. Nem mais, nem menos. Também, ela não teria muito mais a falar além disso. O que uma mulher que não sabe nem a capital da Alemanha pode ter tanto a dizer? Ela sai com qualquer cara que aparece. Ela tem os dentes amarelados. Ela volta pra casa tarde, esquece a chave e acorda a vizinha pra não dormir no corredor. Ela já dormiu no corredor. Ela dança de forma sensual sem nenhum pudor. Ela já disse uma vez, não lembro quando, mas disse, que não quer ter filhos porque da muito trabalho ter que arrumar alguém pra cuidar deles no fim de semana. Você ouviu? Ela quer viver como uma adolescente. Ela não sabe a idade que tem. Eu chutaria 35. Você acha pouco? Estou emprestando a minha voz a uma mulher que chora na novela e no intervalo da novela. Acendo um cigarro. Estou rouca. E ela, ela vive.
Onde ela nasceu não é assim pequeno pros lados, mas é pequeno pra frente. A pessoa cresce, não precisa nem ser muito, e vai trabalhar na lanchonete da avó, na vendinha da mãe, no açougue do pai.
Lá onde ela nasceu, quem tem sorte, divide o pai com muita gente. Quem não tem, tem só a mãe mesmo. Mas tá bom. Pra ser alguém na vida, só mesmo indo pra cidade grande, ela pensava. Grande pra frente, de oportunidade. Oportunidade é uma palavra que ela aprendeu no jornal da TV e gostou, passou a usar. Assim como passou a usar “muito maneiro”, ao invés de “muito massa”, embora os irmãos estranhassem nas cartas.
Agora ela está na cidade grande, no bairro grande, no apartamento que é um exagero. Nunca tinha visto tanto espaço vazio junto. Ela trabalha em Copacabana, bem no finzinho, dá até pra dizer pras amigas que é quase Ipanema. Ipanema é muito maneiro, ela pensa. Agora ela está na janela, quer dizer, atrás da janela fechada, mas que tá tão limpinha, que é como se estivesse aberta, dá pra ela ver tudinho. O mar, que logo que ela chegou, contava quantas vezes o tinha visto, mas quando chegou na vez 30, parou de contar. Lá de cima, da janela, ela não consegue ver os peixes, de coisa que nada, ela só vê mesmo uns barquinhos lá no fundo e uns homens. “Eu que num tenho coragem”, é o que ela diz pra Dona Elizabeth quando a patroa pergunta se ela já mergulhou.
Dali ela vê os meninos vendendo côco o dia todo. O côco prontinho, aberto e com canudo. Ela se pergunta quem é que sobe na arvore pra catar a fruta, já que esses meninos são muito magrinhos pra isso. Tem também muita gente com pressa embaixo dos pés, que vai de carro, de ônibus, de van, de todo jeito. E ela olha, olha, mas como não tem pressa embaixo do olho, não consegue acompanhar.
Se a patroa chegasse agora, ia ver as bochechas dela pegando fogo, é que acabou de passar no calçadão, o Raimundo, o porteiro do 1530, da praia mesmo, que ela conheceu na feira. Ela gostou dele. Mas não está entendendo porque é que ele sentou ali no banco, ao lado do homem de ferro, que fica o ano todo lá parado, sentou e pegou o telefone, bem na hora do serviço. Ela podia até gritar, mas não gosta de abrir a janela pra não parecer que tá à toa, sem fazer nada. Ela ouve um barulho que não é a campainha. É o celular novo, cor de rosa, que começou a tocar na cozinha. Deve ser Raimundo.

O lado esquerdo. Do quarto. O lado onde pintavam os dedos de tinta colorida e depois empurravam a parede de rosa ou violeta ou laranja. A moça era tão sorriso. E a felicidade que devia mesmo dar como tinta no corpo. Sabe chorar de rir? Então. Uma lágrima verde, outra azul, outra cor de abóbora. Um roxo escorrendo pelos braços, por debaixo da camisa que pode até ser branca, tanto faz. Iam colorescendo juntos, soprando arco-íris como bolhas de sabão. E deixando as bolhas estourarem nos seus pés e rindo ao ver que os sapatos tinham ficado daquele jeito, felizes, como eles. O outro lado, não sei.
O lado esquerdo. Da cama. A moça era tão algodão. Nem lençol fazia vez de filho, nada no meio do casal. Uns contam bichos-travesseiro pra dormir, eles contavam qualquer coisa engraçada que lhes viesse à cabeça. 1, 2, 3, 15, 22, e eram muitas as coisas e até dormiam mais tarde por isso. Acordavam sábado no chão da sala, domingo na rede da varanda, terça no corredor, entre o quarto e o banheiro. A cama era somente o lugar que acomodava o sono. Só havia uma regra: que ela dormisse sempre do lado esquerdo dele. O outro, hoje não.
O lado esquerdo. Do corpo. A vida surgindo ali, nascendo. A moça era tão ai, era tão ela, era tão. E mais daquele lado. Tinha rompantes de desejos, queria nadar na casa, queria dançar no telhado, queria alimentar o cachorro do vizinho que ela conseguia enxergar da varanda, mas nunca sabia como chegar até ele. Sentia que era ali e somente daquele lado que os abraços aconteciam e o rostos ficavam vermelhos nas maçãs. Para eles, para ela, o coração era uma máquina de bombear felicidade e colorir pulmões, veias e tecidos. Tudo por causa do lado esquerdo. O outro, não importa.