sábado, 24 de outubro de 2009

Lápis Azul


A minha caixa de colorir era azul. O banho todo me tomava em água de brincar. Acontecia assim: água quente-fria-tempo. Demorava seis banhos em pé pra encher a banheira até lá em cima. Banho deitado, em palavra de mãe, é de relaxar. Em palavra de menina, é de virar peixe. A gente entrava como se entrasse num quarto sem barulho. Tchibum era o único. Devagar pra não levar tombo. Depois, fazia nado que era de ponta a ponta na água. Onda quebrando pra fora, no chão. Não briga, mãe. O olho terminava o banho primeiro que eu por motivo de sabão, mas eu não saía. Assoprava a água pra fazer vida pro barco e ele ia. Às vezes, virava. Só quando a toalha vinha num abraço é que eu tinha que sair. Até hoje é assim, me dá um lápis azul que eu desenho um dia feliz.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Poema Bobo

Eu quero morar numa casa
com janelas de madeira.
Daquelas que o sol vem em listras.

Pintar de laranja, eu gosto.
E torcer pro tempo virar
e virar de novo,
tempo redondo-quadrado.

Passar o dia vendo formiga na janela
vai ser bom.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

11.10.09


A tristeza é só uma ponte.
Aperta no peito e no pé.
O que a gente precisa é de fôlego.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Receita de família

A gente precisa lembrar que foi escravo no Egito. Mas eu já preciso lembrar de tanta coisa. Será que de vez em quando, eu posso esquecer essa parte da escravidão, da fuga às pressas, do mar indeciso? Que o meu pai não me ouça, mas a memória nem sempre é uma benção. Ainda bem que não há espaço para guardarmos tudo e freqüentemente podemos arrumar nossas gavetas em paz. O problema é quando a doença faz essa escolha por você. A doença não gosta de perguntas feitas há cinco minutos. A resposta, então, ela nem dá bola. Ninguém ligou muito quando a bisavó esqueceu em que ano veio da Polônia. 34 ou 36? Não faz mesmo muita diferença. Também não houve grande comoção quando ela começou a confundir os nomes dos mais novos. Mas quando a minha avó disse que a mãe não lembrava mais como se fazia a chalá, as reações foram as piores. Minha tia sugeriu que alguém aprendesse antes que ela esquecesse de vez. E lá fui eu. Minha avó, sem paciência, logo disse: se ela se confundir muito, liga a TV e desiste. Eu e ela na cozinha. E uma folha de papel que chegou ao Brasil em 34 ou 36, com a ordem e as quantidades dos ingredientes. Eu pegava duas xícaras de farinha e ela jogava metade de volta dentro do saco. Eu dizia: mas está escrito que são duas xícaras. E ela fazia que não com a cabeça e com a mão. Primeiro a água, depois o fermento. Ela jogava o fermento primeiro. Parecia mesmo que a minha avó estava certa. Comecei, então, a me lembrar do cheiro, o cheiro que abafava todos os perfumes da casa, que acordava o tio no sofá, que era doce e salgado na medida exata, que reunia uma família inteira em volta dele. Exatamente o cheiro que eu comecei a sentir naquela cozinha, com a minha bisavó do meu lado, sentada na cadeira, pacientemente esperando o momento de abrir o forno. Só então eu entendi que ela não seguia a receita. Ela era a receita. E disso, eu nunca quero me esquecer.

 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Quotes #1

"Why are you leaving me?
He wrote, I do not know how to live.
I do not know either but I am trying.
I do not know how to try.
There were some things I wanted to tell him. But I knew they would hurt him. So i buried them and let them hurt me"

Jonathan Safran Foer

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Primavera

Terça-feira não é dia de receber primavera.
Não separei meu vestido de cor.
Não coloquei o sol virado pra janela.
Não acordei de bom dia, acordei de dia, só.
Pouco tempo faz que eu era cinza. E agora?
Seja terra, eu peço às mãos daquele homem.
Hoje eu queria ter nome de flor.

Fluxo

Quando sou água, atravesso sem que ninguém me veja. Inteira não suporto, você me dói.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A verdade é que


Eu me comovo com as palavras. As vezes eu apenas penso em escrever e já choro. As vezes eu espero que as palavras venham pra poder chorar. Depende. A possibilidade das letras arrumadas entrar em mim chutando a porta é muito grande. Todo o meu corpo se abre em afeto e fôlego. Eu existo.

sábado, 12 de setembro de 2009

Confissão #2

Todas as histórias aqui são inventadas. Todas as histórias se passaram comigo.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Quase

Tenho 5 ponteiros em cada mão apontando para um tempo que é unicamente o do corpo. Se alguém me perguntasse que horas são, eu poderia dizer apenas: hora de ser outra. E com isso não sei mais dizer quando cheguei aqui neste quarto ou quando foi que lhe vi pela primeira vez desse jeito tão, não sei, exposto? Sim, exposto é um bom adjetivo quando estamos assim quase-entregues. Pois que todas as minhas partes me lembram que somos um quase-casal. Que há algo entre nós, como um hífen, guardando a chuva do lado de dentro deste lugar. Quero me tornar uma mulher que não conhece formas retas, camas exatas, fatias de quartos. Anda e me bagunça, porque eu não posso mais dormir numa quadra de tênis. Estamos a beira de viver e no entanto, fazemos a volta. Você não tem um milímetro de amor e eu só sei andar pulando réguas de dois em dois.


(texto publicado em canetalentepincel.blogspot.com)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Portas Abertas

A generosidade começava no movimento das portas. Os armários sempre meio abertos, nunca fechados por completo. Como se as portas de madeira escura fossem uma senhora, muito vó, que já não lembrasse mais como se guardam os segredos. Camisa de seda com estampa de gaivota (mãe diz que essa era a sua favorita, pelo tecido, pelo desenho não) ponteando a gola pro lado de quem abre, e eu não sei qual leveza é maior, se a do fundo ou a do que voa. A camisa. Você era a fada mais bonita daquela apresentação de balé. Não era fada, vó, era bruxa. Pois era tão bonita, que pro meu olho, apareceu fada. Ganhei flores e abraços de gaivota nesse dia. A camisa. Você lembra da vovó com esses óculos redondos?, pergunta minha mãe. Lembrar, às vezes, é viver com saudade. Desde que a vovó morreu, eu vivo com saudade os óculos redondos, os telefonemas de domingo, o sotaque de quem trocou uma casa longe por outra aqui. O sotaque de quem perdeu bonecas, quintais com árvores, de quem perdeu mãe. Vó, não é dois pessoas, é duas pessoas. Galinha é galinha e pessoa é pessoa. Isso eu preciso saber, o resto não me amola. A gente ria. Era engraçado? O sotaque. Esses óculos voltaram a estar na moda, você sabia? Quer pra você? Não ficam bem pra mim. Visto os óculos, servem perfeitamente para o meu rosto. Minha mãe ri e fala com um certo tom de deboche: por que você sempre gostou dessas coisas que não são muito do seu tempo? Talvez porque eu nunca tenha conseguido tirar as pessoas das coisas. E as melhores pessoas estavam dentro das coisas mais fora do meu tempo. Ou mais dentro. Acontece. Respondo apenas: não sei, é gosto. Não são só estes óculos que colocam o passado no meu rosto.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Aniversário

A festa aconteceu de mim pra fora.
E eu tive 100 balões estourando aqui dentro.