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Desculpa se eu não posso competir com o seu passado. E pedir pro seu prato vir sem mostarda, porque você não suporta nem o cheiro. Eu também vim com as minhas marcas e códigos – todos carregam os seus pra lá e pra cá e pesa demais. Mas se desfazer deles seria como deixar um braço na cadeira do cinema, ao levantar. Desculpa se eu não sei quais são os seus filmes, se não os tenho, se não os vi. Eu sou mais musical do que visual. E te perdôo por não ouvir blues pela manhã. Já perdoei tantos por isso. Seu aniversário ainda é um dia em branco no calendário. E a minha voz não te acalma. Ainda. Mas vai acalmar um dia, se nós deixarmos. Ouve. E me perdoa. Dobrei o livro na página 21 que era pra você encontrar e ler, isso significa que eu estou aqui. Aqui e nova. Aqui e inteira. E eu preciso que você me aceite.
"Por mágoa ou por felicidade, sinto às vezes vontade de me abismar".
Roland Barthes
12 filmes em janeiro. O ano começou assim, com uma película na frente dos dias. Interruptor pra amor não funciona, baby. Se funcionasse, estaríamos off, um pouco on, sometimes, mas off, definitivamente. Comecei vendo aquele da Sofia Coppola, você também gosta. Os dois em Tóquio e você sabe que eu nem ligava pra cidade até ver o filme. Downtown oriental é muito mais charmoso. Tipo Nova Iorque só que você entende menos, não o porquê das luzes, mas o que elas querem dizer. Sabe aquela parte em que ela diz que eles nunca mais devem voltar pra lá porque nunca mais será as much fun? Ai, eu acho tão lindo. Se eu pudesse, eu nunca mais iria àquele cinema de Botafogo, o mais perto da praia. Lembra do dia em que o bebedor espirrou água na sua camisa e você entrou no cinema completamente encharcado e uma senhora perguntou de uma forma tão sincera se estava chovendo lá fora e você, para não fazê-la se sentir mal, disse com a maior naturalidade do mundo “um pouco”, lembra? Eu lembro na hora do filme com a Catherine Deneuve – como eu queria ter o rosto dela – cantando por Paris. Foi o segundo filme ainda no primeiro dia do mês e o cartaz com ele e ela e o guarda-chuva continua no meu quarto. Acho que decidi que o meu filho (quando eu o tiver) vai se chamar Nino por causa do ator ou por causa do personagem que eu amo, esse você sabe bem, é um filme que fala tanto de mim, já pensei cem vezes em guardar uma caixinha dentro da parede do meu banheiro que é pra daqui a 50 anos, transformar a vida de alguém. Vamos nos casar na Catedral de Montmartre? Não precisa nem ser lá dentro, pode ser na escadaria mesmo. Sonho com bastante freqüência que estou lá. Especialmente quando estamos off, eu e você, ver o filme não ajudou muito. Vi também aquele que você me recomendou, o que o cara perde a memória e a historia é contada de trás pra frente. Minha próxima tatuagem vai ser uma foto Polaroid. 12 filmes em janeiro. Abri a caixa de DVD e veio um poema. Era aquele israelense, revi 3ª feira. Nem o Amos Oz faria um filme desses, nem Drummond, tenho certeza. Voltei cinco vezes a cena dele cantando “My Funny Valentine” no aerporto, era como se fosse pra mim. Uma 3ª feira pode ser tão perdida quanto uma orquestra mal regida. Vi uns filmes bobos também, de super-heróis pulando sobre prédios, dando beijos de ponta-cabeça, e eu ainda tenho a impressão de que os nossos eram mais mágicos. Você também? Enquanto estamos assim distantes, você gostaria que eu deixasse um monte de fitas gravadas pra você ir ouvindo aos pouquinhos, conforme fosse sentindo a minha falta? Vi isso em outro filme e chorei dois baldes de saudade. Era de uma mãe para as filhas, mas era amor, você me entende? Se eu fosse a personagem da história de alguém, eu pediria agora que a minha autora – e digo autora porque sei que uma personagem como eu, só poderia ter sido desenhada por uma mulher – que me desse um cookie de baunilha com chocolate, é urgente. Tanta coisa é. Os filmes do Woody, por exemplo, vi 3, esse mês. Ouvi Gershwin até dizer chega. Parecia que eu já acordava com o barulho do piano. Por acaso você cresceu numa casa sob uma montanha russa? Desculpa, eu não podia perder a piada. Finalmente decorei o poema do e.e.cummings e prometi pra mim mesma que vou tomar um Milk Shake daquele que ele toma com a Mariel Hemingway no balcão da lanchonete. Me encontra numa lanchonete perdida no meio da cidade? Ver filmes me deixa com tantas idéias. Me encontra numa cidade em que só se chega de trem, não vou citar Montauk, porque seria um golpe muito baixo. Vi esse também. Se eu soubesse o peso da memória, pediria pra nascer com uma sacola em cada braço para suportar a vida. Mas estou bem. Desligo o interruptor. Estamos off, baby. Estamos? Já é tarde, acho que vou dormir.
Água
Água
Água
Na minha arca,
Levo uma alegria de cada espécie.
Recomeça outra vez.
No princípio, será o verbo
Sorrir.
Eu só queria uma casa simples,
Pra poder andar sem sapato.
Hoje o blog faz um ano. Quem gostou levanta a mão. :)
Nunca tive preguiça de gesto,
Só de arrumar palavra comprida.
Por isso escrevo
Poemas tão curtos
Sobre movimentos infinitos.
E aí você deseja que ele goste também de uvas como você e na primeira oportunidade que você tem de descobrir isso, ele te diz que odeia – as uvas – e você pensa tudo bem, desde que ele goste de ler, eu gosto, quero alguém que goste também, muito, e ele lê, mas lê aqueles livros que você, hum, não gosta muito, está bem, você detesta, Código da Vinci e outros fáceis de achar na entrada de qualquer livraria de Shopping, você não é esnobe, claro que não, você só quer - e peloamordedeus, seria pedir demais? – alguém que goste de você e que você goste também e que seja parecido contigo. Não é pedir demais. Não é. Mas você aceita que ele odeie uvas e os seus livros, ele é bom caráter, você está muito exigente, garota, quer mais que bom caráter? Isso é ouro hoje em dia, muita gente nem tem. Aí ele diz que te adora e não te liga e te faz de idiota e diz que não quer mais te ver. Caráter? Pra que mesmo? Ele não usa. Mas você até aceita porque ele tem uma voz que você acha linda e um cabelo bonito, sabe? Daqueles bagunçados de propósito. Ou então, pior! Ele tem bom caráter sim, ótimo, sempre te liga, diz que te adora to-do-san-to-di-a, mas você, ai, você, desculpa, você não gosta dele, não bateu, entende? Mas você conheceu outro cara que já leu todos os livros que você já leu, que conhece umas músicas que você sempre quis conhecer, que ama uvas, fruta preferida dele, não acredito! É a sua também! Oh, god, ferrou, mas ele, sei lá, é meio estranho, às vezes, não fala muito de mulher, te chamou pra sair, mas não te beijou, nem chegou muito perto e você estava com o vestido preto, com “o” vestido preto, aquele que você usa quando tem as melhores intenções. Cara, se uma pessoa te chama pra sair e não te beija enquanto você está usando aquele vestido, baby, esquece, ela não vai te beijar nunca mais. Aí, a sua amiga te chama pra sair pra dançar e você vai, bonita até, e um cara te olha, opa, você gostou dele, ele vai falar com você, bate um papo rápido berrando no seu ouvido, porque afinal de contas, vocês estão numa boate e não num café, mas até que seria legal tomar um café com ele, morar junto, ter uns filhos, por que não? Cala a boca, você nem beijou o cara ainda. Ele não para de tomar cerveja, você odeia cerveja, mas ele é lindo, muda o foco, vai, tira da cerveja e põe no rosto dele, você vai se dar melhor assim. O beijo é bom, sabe? Você gosta. Mas ele não para de beber essa merda e isso está fazendo ele quase, sei lá, cair em cima do DJ, já pensou que vergonha? Você quer saber se ele gosta de ler, mas ele não entende mais o que você diz, você grita “ler” e ele ouve “beber?”. Oi, gatinha. Você diz “ler” e ele ouve “hein”, você desiste. Nem lembra das uvas, ainda bem. Você achou ele meio mala, pô, bêbado em cima de você, que desperdício, vocês poderiam ter aproveitado esse tempo de uma forma tão melhor. Mas ele te liga e você esquece a cerveja, o bafo de cerveja, os passos trôpegos e lembra só dos olhos azuis, ele tem uns olhos, que nossa, impressionantes mesmo. E a sua mãe ainda te chama de exigente.
Um poema
Que não quer ser poema.
Uma moça penteando os cabelos,
Às vezes, rima.
"We're all faced throughout our lives with agonizing decisions, moral choices. Some are on a grand scale, most of these choices are on lesser points. But we define ourselves by the choices we have made. We are, in fact, the sum total of our choices. Events unfold so unpredictably, so unfairly, Human happiness does not seem to be included in the design of creation. it is only we, with our capacity to love that give meaning to the indifferent universe. And yet, most human beings seem to have the ability to keep trying and even try to find joy from simple things, like their family, their work, and from the hope that future generations might understand more".
"You will notice that what we are aiming at when we fall in love is a very strange paradox. The paradox consists of the fact that, when we fall in love, we are seeking to re-find all or some of the people to whom we were attached as children. On the other hand, we ask our beloved to correct all of the wrongs that these early parents or siblings inflicted upon us. So that love contains in it the contradiction: The attempt to return to the past and the attempt to undo the past".
Estrelas se colando ao teto.
Se eu abro e fecho os olhos
rapidamente,
elas até brilham.
Eu não preciso criar mais janelas
para que hajam mais céus.
Fico só noiteando,
enquanto você dorme.
Acredito nas coisas que acontecem como água. assim, em fluxo de transparência., impressas no corpo. Estou sendo absolutamente eu agora e no segundo seguinte, sua autora. Não fiz nada por você. Seu nome, seus gestos, suas roupas, fiz tudo por mim e só me dei conta quando você disse na sua carta que me tinha como uma neta, que pensa até em que lugar da mesa eu sentaria se passasse o ano novo com vocês. Logo eu? A única pessoa capaz de imaginar e planejar a sua morte. Você amaria uma pessoa sabendo que a sua vida se equilibra naquele fio solto na barra da saia dela? Por favor, não quero recheio no meu bolo, não posso aceitar. Sim, eu fiz você mais doce do que alguém com a sua historia poderia ser e agora peço que você me surpreenda. Como? Eu não sei. Preciso fechar os meus olhos e enxergar com as suas mãos. As únicas reclamações que você tem em relação a mim são a temperatura do banho, quente demais, e que vez ou outra, você se sente um pouco exposta. Você faz questão de marcar bem o “um pouco”, na sua carta, que é pra não me chatear. Eu sou a sua autora e não o seu jardim. Meu deus, eu criei uma pessoa acolchoada, e tenho medo que essa seja a textura do meu sentimento de mundo. Você não tem culpa, eu lhe dei a chance de falar e você falou. Podemos ter menos cuidado uma com a outra a partir de agora. Se você for mais real, quem sabe eu não serei também?
Eu fico pensando se tem algum momento em que todas as pessoas do mundo estão de olhos fechados ao mesmo tempo. Todas. Entendo que existam os fusos-horários e os que têm insônia e os vigias noturnos e os preguiçosos e as mães de recém nascidos e a China. E fico feliz que os chineses fechem os olhos enquanto riem. Aumenta as minhas chances. É por isso que em alguns momentos do dia, assim, de repente e sem que ninguém veja (se vissem, já não adiantaria), fecho os meus e penso que se alguém estiver tendo esta mesma idéia em Sidney, Moçambique, Brasília, não importa, eu vou ter feito a minha parte.