
A palavra-quântica é impronunciável.
I want a little sugar in my bowl. I want a little sweetness down in my soul.
É engraçado como de uma hora pra outra,
Eu – esse ser tão descabido de interrogações –
Posso segurar a chama de um isqueiro com a língua,
Sustentar o vento com a pálpebra do meu polegar,
Escravizar as uvas retendo apenas o liquido denso e vivo
que sai delas,
Catapultar avenidas,
Abrigar montanhas dentro do meu casaco de seda,
Ouvir o que sussurram as formigas na linha do trem,
Posso tudo, e nada me evapora,
Só não posso, nem com toda a sorte do mundo,
dizer não.
Por isso, espero.
E tenho saudade.

Vestiu uma roupa laranja e foi dizer sim. De branco ficou a cara do pai, fazendo susto com as bochechas. Na grama a gente não pisa, mas a alegria pula e vai bem alto colocando um laço lilás no cabelo dela. Um jardim de fazer crescer para sempres. Ele jura que vai construir a casa na árvore. Ela promete que vai amarelar as paredes de cor. Todo mundo em ah, e o olho da mãe regando o vestido. Diluviando. Ele já pode assoprar o cabelo dela: sim, sim. Ela joga um saco de pipocas para trás e quem pega uma comemora. Tem sorte. Todos dançam em carrosséis até o céu girar também e eles rodam, rodam, rodam, circulando o todo dia de amor.
A mulher foi embora assim numa manhã, sem deixar nem vento. Ela era folha, ele era raiz. Ficou. E chorou porque homem que é homem se apresenta pra dor, mas não se demora muito nela. Ele a procurou na cidade e fora dela e não tinha uma árvore que não soubesse o rosto da mulher; colou a foto mesmo, que era pedido de ajuda. Um dia, o teto ficou longe e ele bateu a cabeça no chão. Era o primeiro enjôo. Nunca tinha sentido isso, mas não fugiu, se apresentou novamente e o médico pediu exame. O senhor não fuma, não bebe, não tem chefe, não tem porque cair assim. A minha barriga, doutor, ta fazendo o resto do corpo encolher. Desde quando? Faz tempo pequeno, foi quando ela foi embora, to assim de tanto esperar. O médico ficou branco quando deu a notícia: a espera é agora, tem um bebê na sua barriga. A cidade inteirinha querendo ver, que coisa assim se espalha logo e ele olhando a coragem e dizendo: vambora? E foram. Passou um mês, seis, nove e a mulher voltou. Voltou? Ele com dois corações batendo apressados e ela dizendo: não queria ter feito você esperar tanto. E ele: agora já foi. No dia seguinte, o bebê nasceu. Era a cara da mãe.
Há que se ter o distanciamento exato da coisa para poder falar sobre ela. Nem mais, nem menos. Nem perto, nem noutra cidade. A pedra, enquanto pedra, precisa estar a três passos, senão é ponto ou muro. Senão é pó ou caverna. Há que se sair da pedra para estar nela. As coisas, às vezes, precisam não estar.

— Então, Charlie Brown, o que é amor para você?
— Em 1987 meu pai tinha um carro azul.
— Mas o que isso tem a ver com amor?
— Bom, acontece que todos os dias ele dava carona para uma moça. Ele saía do carro, abria a porta para ela, quando ela entrava ele fechava a porta, dava a volta pelo carro e quando ele ia abrir a porta para entrar, ela apertava a tranca. Ela ficava fazendo caretas e os dois morriam de rir. Acho que isso é amor.
Peanuts, 1999.