quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

palavra-quântica


A palavra-quântica é impronunciável.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

wild at heart


O toque

sutil

como um não toque

e intenso

como um mergulho.

A delicadeza

também

é uma provocação.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

para flutuar













respire fundo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um poema pra novembro

É engraçado como de uma hora pra outra,

Eu – esse ser tão descabido de interrogações –

Posso segurar a chama de um isqueiro com a língua,

Sustentar o vento com a pálpebra do meu polegar,

Escravizar as uvas retendo apenas o liquido denso e vivo

que sai delas,

Catapultar avenidas,

Abrigar montanhas dentro do meu casaco de seda,

Ouvir o que sussurram as formigas na linha do trem,

Posso tudo, e nada me evapora,


Só não posso, nem com toda a sorte do mundo,

dizer não.


Por isso, espero.


E tenho saudade.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ponteiros batem feito corações


Todos os ponteiros de relógios apontam em direções diferentes não há hora exata para ir embora o tempo é uma reta e mais outra com um ponto no meio do caminho já é à tarde ou então é cedo se o menor assim quiser ele rabisca agendas marca compromissos marca passos 24 passos por dias sem sair do círculo e ainda assim é livre enquanto um deita aqui o outro já está de pé no Japão eles nunca se encontram como as famílias que se reúnem para jantar em um ângulo de 90 graus ou durante a novela que nunca se atrasa se ao invés de números fossem cores talvez você acordasse em pleno amarelo e ao alaranjar fosse a hora de dormir se ao invés de cores fossem palavras você diria ainda são dinossauros me chame só ao guarda-chuva se ao invés de palavras fossem sensações o maior poderia parar na alegria mesmo se estivesse com a bateria funcionando bem rápido vão os ponteiros do relógio especialmente quando num minuto estão muitos dias e eles batem batem batem feito corações.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Para Guimarães Rosa

Vestiu uma roupa laranja e foi dizer sim. De branco ficou a cara do pai, fazendo susto com as bochechas. Na grama a gente não pisa, mas a alegria pula e vai bem alto colocando um laço lilás no cabelo dela. Um jardim de fazer crescer para sempres. Ele jura que vai construir a casa na árvore. Ela promete que vai amarelar as paredes de cor. Todo mundo em ah, e o olho da mãe regando o vestido. Diluviando. Ele já pode assoprar o cabelo dela: sim, sim. Ela joga um saco de pipocas para trás e quem pega uma comemora. Tem sorte. Todos dançam em carrosséis até o céu girar também e eles rodam, rodam, rodam, circulando o todo dia de amor.

Para Mia Couto

A mulher foi embora assim numa manhã, sem deixar nem vento. Ela era folha, ele era raiz. Ficou. E chorou porque homem que é homem se apresenta pra dor, mas não se demora muito nela. Ele a procurou na cidade e fora dela e não tinha uma árvore que não soubesse o rosto da mulher; colou a foto mesmo, que era pedido de ajuda. Um dia, o teto ficou longe e ele bateu a cabeça no chão. Era o primeiro enjôo. Nunca tinha sentido isso, mas não fugiu, se apresentou novamente e o médico pediu exame. O senhor não fuma, não bebe, não tem chefe, não tem porque cair assim. A minha barriga, doutor, ta fazendo o resto do corpo encolher. Desde quando? Faz tempo pequeno, foi quando ela foi embora, to assim de tanto esperar. O médico ficou branco quando deu a notícia: a espera é agora, tem um bebê na sua barriga. A cidade inteirinha querendo ver, que coisa assim se espalha logo e ele olhando a coragem e dizendo: vambora? E foram. Passou um mês, seis, nove e a mulher voltou. Voltou? Ele com dois corações batendo apressados e ela dizendo: não queria ter feito você esperar tanto. E ele: agora já foi. No dia seguinte, o bebê nasceu. Era a cara da mãe.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A pedra

Há que se ter o distanciamento exato da coisa para poder falar sobre ela. Nem mais, nem menos. Nem perto, nem noutra cidade. A pedra, enquanto pedra, precisa estar a três passos, senão é ponto ou muro. Senão é pó ou caverna. Há que se sair da pedra para estar nela. As coisas, às vezes, precisam não estar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Uma carta para o futuro

Bom dia, filho. Digo bom dia porque escrevi uma carta tão ensolarada pra você que eu espero que você leia de manhã., com as janelas bem abertas. Daqui a dez anos, eu já vou ser sua mãe, mas hoje eu ainda sou outra coisa que você não vai poder conhecer. Normal. Nem todas as coisas nos esperam para acontecer. É por isso que eu estou escrevendo, porque eu queria muito que você soubesse o cheiro que o meu cabelo tem agora aos vinte e poucos anos. E que hoje ele está comprido, mas já foi curto também. Eu queria que você soubesse que eu não perco uma oportunidade de dançar, mesmo que eu esteja no metrô, mesmo que não tenha música. Eu sou assim, filho. E fico feliz quando como atum na hora do almoço. Atum é um peixinho que eu vou te mostrar um dia. Eu sou uma menina que perde todos os papeis e chaves de casa, mas não fica com medo, eu juro que vou saber cuidar bem de você. Quero que você saiba que eu pinto as unhas de amarelo e acredito tanto no amor incondicional, que abro cada vez mais os braços, para que ele ganhe o mundo. Espero que quando você estiver lendo esta carta, o tempo já venha com 3 ponteiros, ao invés de dois: minuto, segundo e alegria, indicando que é hora de sorrir mais. Mas espero mais ainda que você entenda que o tempo linear é menos importante do que o tempo que você quer que as coisas durem. Só agora me lembrei que talvez você nem saiba ler ainda. Não tem problema, deita aqui que eu te conto tudo antes de dormir.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

a gente rodava


a gente rodava rodava rodava e soltava as mãos e ainda assim rodava ao mesmo tempo e na mesma intensidade e as paisagens se repetiam ou éramos nós já não lembro quanto mais rápido mais vermelha ficava a minha saia e eu queria uma esvoaçante para enfeitar o sentido horário de meu bem ele é único até quando se repete guardo um pedaço seu a cada volta reparo em algo novo tem uma bateria com mil pratos na minha cabeça que até parecia carnaval dentro de mim e era e eu não podia parar e nem você e nem o tempo esse teimoso o tempo me seguia sem nos alcançar íamos além e a gente rodava




domingo, 1 de agosto de 2010

Peanuts 1


— Então, Charlie Brown, o que é amor para você?
— Em 1987 meu pai tinha um carro azul.
— Mas o que isso tem a ver com amor?
— Bom, acontece que todos os dias ele dava carona para uma moça. Ele saía do carro, abria a porta para ela, quando ela entrava ele fechava a porta, dava a volta pelo carro e quando ele ia abrir a porta para entrar, ela apertava a tranca. Ela ficava fazendo caretas e os dois morriam de rir. Acho que isso é amor.

Peanuts, 1999.