quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A pedra

Há que se ter o distanciamento exato da coisa para poder falar sobre ela. Nem mais, nem menos. Nem perto, nem noutra cidade. A pedra, enquanto pedra, precisa estar a três passos, senão é ponto ou muro. Senão é pó ou caverna. Há que se sair da pedra para estar nela. As coisas, às vezes, precisam não estar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Uma carta para o futuro

Bom dia, filho. Digo bom dia porque escrevi uma carta tão ensolarada pra você que eu espero que você leia de manhã., com as janelas bem abertas. Daqui a dez anos, eu já vou ser sua mãe, mas hoje eu ainda sou outra coisa que você não vai poder conhecer. Normal. Nem todas as coisas nos esperam para acontecer. É por isso que eu estou escrevendo, porque eu queria muito que você soubesse o cheiro que o meu cabelo tem agora aos vinte e poucos anos. E que hoje ele está comprido, mas já foi curto também. Eu queria que você soubesse que eu não perco uma oportunidade de dançar, mesmo que eu esteja no metrô, mesmo que não tenha música. Eu sou assim, filho. E fico feliz quando como atum na hora do almoço. Atum é um peixinho que eu vou te mostrar um dia. Eu sou uma menina que perde todos os papeis e chaves de casa, mas não fica com medo, eu juro que vou saber cuidar bem de você. Quero que você saiba que eu pinto as unhas de amarelo e acredito tanto no amor incondicional, que abro cada vez mais os braços, para que ele ganhe o mundo. Espero que quando você estiver lendo esta carta, o tempo já venha com 3 ponteiros, ao invés de dois: minuto, segundo e alegria, indicando que é hora de sorrir mais. Mas espero mais ainda que você entenda que o tempo linear é menos importante do que o tempo que você quer que as coisas durem. Só agora me lembrei que talvez você nem saiba ler ainda. Não tem problema, deita aqui que eu te conto tudo antes de dormir.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

a gente rodava


a gente rodava rodava rodava e soltava as mãos e ainda assim rodava ao mesmo tempo e na mesma intensidade e as paisagens se repetiam ou éramos nós já não lembro quanto mais rápido mais vermelha ficava a minha saia e eu queria uma esvoaçante para enfeitar o sentido horário de meu bem ele é único até quando se repete guardo um pedaço seu a cada volta reparo em algo novo tem uma bateria com mil pratos na minha cabeça que até parecia carnaval dentro de mim e era e eu não podia parar e nem você e nem o tempo esse teimoso o tempo me seguia sem nos alcançar íamos além e a gente rodava




domingo, 1 de agosto de 2010

Peanuts 1


— Então, Charlie Brown, o que é amor para você?
— Em 1987 meu pai tinha um carro azul.
— Mas o que isso tem a ver com amor?
— Bom, acontece que todos os dias ele dava carona para uma moça. Ele saía do carro, abria a porta para ela, quando ela entrava ele fechava a porta, dava a volta pelo carro e quando ele ia abrir a porta para entrar, ela apertava a tranca. Ela ficava fazendo caretas e os dois morriam de rir. Acho que isso é amor.

Peanuts, 1999.


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Hahahaha


"I love people who make me laugh. I honestly think it´s the thing i like the most. To laugh. It cures a multitude of ills. It´s probably the most important thing in a person."


Audrey Hepburn

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Inevitável ou a direção de todas as coisas

Sim, ir embora dói porque ainda há lugares em você que não conheço. E a beleza do intocável se multiplica na velocidade de uma tarde alegre de sábado. Há mais portas num pequeno quarto fechado do que num casarão medieval, depende de quem o habita. Sim, ir embora dói e a despedida de um gesto é mais dolorosa do que qualquer outra, porque um gesto sempre se expande e acorda outros gestos e acorda os tigres que moram em mim e eu não posso mais alimentá-los porque o que sobrou de água aqui dentro mal dá para uma pessoa pela metade. Mas ainda acredito naqueles pequenos lugares aos quais nunca fui e a sua voz é uma seta amarela, imensa e luminosa, na direção de todos eles. Não me dê uma saída, me dê um caminho. Viver é óbvio e inevitável.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Medida de azul



mais vale um céu sorrindo do que dois chorando.

domingo, 20 de junho de 2010

Não posso dar vida a uma mulher sem abismos.
Não existe nascimento sem dor.

sábado, 19 de junho de 2010

As coisas

"as coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. as coisas não têm paz."

arnaldo antunes

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Rotina

de repente,
a gente inaugura um gesto
e ele dura.
a rotina também nasce do acaso.
e o acaso é bom.

quarta-feira, 9 de junho de 2010


dance me to the end of love.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A explicação que eu daria a uma criança:

Primeiro, você pega uma caixinha pequena, do tamanho de um dia feliz – a alegria sempre pode ser maior – uma caixinha pequena e lisa, que é pra você enfeitar do jeito que for mais seu. Você forra a caixa por dentro, com todo cuidado, se possível, com o tecido mais delicado que encontrar. É importante que a casa do seu sorriso seja confortável. Então você começa a preencher o espaço. Comece pelos abraços. Coloque dentro da caixa todos os abraços que você já deu, quer dizer, todos não, só aqueles em que o cheiro da outra pessoa tenha ficado na sua roupa depois, os mais longos e apertados. Em seguida, coloque a sua comida preferida. Pode ser doce. Deve ser doce. Mas pode ter sal também. Duas ou três fotos que você mesmo tenha tirado. Das nuvens, do jardim e das crianças. A sua flor preferida, a sua cor preferida, o casaco mais confortável que você tiver. Coloque a cena mais bonita, do filme mais emocionante, com ou sem beijo, mas com muita verdade. Isso, coloque verdade, em doses imensas. Mas nenhuma que possa machucar. Não se esqueça da música. Uma caixinha tão delicada precisa de música, pra dançar, inclusive. Aquele álbum raro, da melhor banda de todos os tempos, precisa estar lá. Coloque carinhos no cabelo, cheiros de mar, poemas curtos, receitas de bolos, gargalhadas na grama. Inclua frases como: “já viu como a lua está linda hoje?” ou “eu adoro dias frios” ou “hahaha”, mas, principalmente, esta: “gostou? Fui eu que fiz”. Você coloca o que você tem de melhor dentro dela e chega até a se perguntar como coube tanta coisa em uma caixa deste tamanho. Ela supriria um filho cuja mãe estivesse ausente, ela alimentaria toda uma civilização escondida no topo de uma montanha, ela detonaria fogos de artifício em um deserto. Mas não. O que você quer é entregá-la a uma só pessoa. E o nome disso é amor.